>Vou lhes contar: Já fui em uma seção de descarrego por engano e me dei mal. Perdi um quilo e meio correndo.
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Nem sei se eu devia estar contando isso para os meus leitores, mas vamos em frente. Há cerca de dois anos atrás me apareceram um grupo de evangélicos em minha casa, no inicio queria apenas divulgar exemplares de algumas publicações de revistas evangélicas e pedir uma graninha para investir nas publicações. A cada semana vinham com suas ‘novidades’. Comecei fazendo curso bíblico também, era maravilhosamente bom. Eu que já lí o novo e parte do Velho Testamento completo, tinha deixado passar alguns entendimentos. Depois de ganharem uma certa confiança começaram a falar de outras religiões. Há quer saber.. Eu nem liguei muito pois sei que Deus está em todas.
Tudo ia bem até começarem a me convidar a ir na igreja deles para presenciar como eram os cultos. Nem me lembro o nome da igreja. Bom… Após várias semanas negando e de acabarem todas as minhas desculpas esfarrapadas resolvi dizer que ia no sábado. Há… Mas não fui sosinho não, um amigo visinho também já não tinha mais o que falar e acabou dizendo que também ia comigo.
Como nós não torcemos pra nenhuma religião, pensamos pelo lado positivo: “pode ser uma experiência interessante”. Ô, se pode. Quem não acharia maravilhoso ver um cego enxergando, um mudo falando e um cadeirante andando? E presenciar alguém encapetado, já pensou? Poxa, por que não dar uma chance para conhecer outra igreja diferente e encontrar um novo caminho até Jesus? Hahahahahahaha. Brincadeira, a gente só queria saber quem seria o campeão em risos contidos.
Pegamos nossas coisas e fomos. Na época a Igreja ficava há uns 3 quarteirões pra baixo da nossas casas e só sei que ela existia porque dáva pra ouvir os berros daqui do meu quarto. Eu era quase um evangélico praticante passivo (à distância).
Chegando lá, achei que tinhado entrado pra assistir um jogo da Copa em um boteco qualquer, porque tinha um mundo de cadeiras de plástico brancas para dar um visual incrível. O culto começou e uma galera foi lá na frente dar testemunhos. Tinha um que era miserável e ficou pobre graças a Jesus. Outra que o marido largou, mas que agora é plenamente feliz porque encontrou o caminho de Jesus. Teve até quem dissesse que teve um encontro com o diabo, e, pela descrição, era o Hellboy. Num sei não se esse pessoal, viu? Andam assistindo muitos filmes.
Tava tudo bem até ali. Apenas vários gritos de “Aleluia!” e “Glória a Deus”… Nada muito especial. Meus risos estavam contidos. Ainda. Foi então que anunciaram que, excepcionalmente naquele dia, fariam o ritual de descarrego. Explicaram que terça não tinha tido porque o pastor teve problemas e então fariam no sábado. GENTE! O que que é isso? É algo que vai além de qualquer experiência mundana, hahaha.
Logo se formou um corredor e todos começaram a passar pelo meio. Não sei se baixa o espírito de árabes no pessoal, mas aquilo ali não era português nem a pau. Era só HALAHALANOTCHANAE pra todos os lados. Eu comecei a rir de uma maneira que nunca tinha rido antes. Sério, foi muito engraçado. Alguns deles me vendo gargalhar passaram um óleo na minha testa e berraram: “Irmãos! Esse aqui está com o diabo no corpo!“. PRA QUÊ MEU DEUS? P-R-A Q-U-Ê? Foi aí que começou a confusão…
Todos fizeram um círculo em minha volta e começaram a fazer meio que uma urucubaca. Eu deveria ter parado de rir. Sério. Mas não dava, eu tava é chorando de rir (no sentido literal), rindo pra ‘BARALHO’, rindo ABSURDAMENTE, enquanto meu amigo só tava num canto com a mão na boca segurando a gargalhada.
O negócio meio que começou a esquentar. Eles ficavam colocando a mão na minha cabeça e falando: O DIABO TÁ FAZENDO ELE CHORAR. XÔÔÔÔ, SATANÁS! Eu já tava começando a ficar p. da vida , porque os caras não paravam. Aí eu dei uma parada na gargalhada de vez e falei “Tá beleza, ele já saiu.. pode parar”. HÁ! Até parece que eles iam largar de mim sem que eu não caísse desmaiado no chão, né? Um malucão insistiu: “TU ÉS DIABO, ÉS UM FINGIDOR, O SEU CORPO ESTÁ AMALDIÇOADO PELO SANGUE DO DEMÔNIO”. Ave Maria! Se só ficasse berrando na minha orelha, beleza, mas eles não paravam de por a mão na minha cabeça com força empurrando pra lá e pra cá… CARAMBA! QUE BANDO DE CHATOS DA ‘POR…TARIA’! Pode ter certeza, o Berg aqui ficou “fumando numa telha”.
Não tive dúvidas. O capeta deve ter descido em mim naquela hora. Já que era sessão de descarrego, comecei a descarregar socos nos caras que estavam me segurando pra eles me soltarem. Veio um danado e me segurou por trás, meti uma cotovelada na boca do estômago e ‘fiz finca’ (expressão nordestina para ‘dar no pé’) no meio do mundo. Ainda empurrei mais uns 3 que tentaram me segurar na porta e tive que dar uma de papaléguas até minha casa, porque, acreditem, os caras vieram atrás. E gritando, ainda por cima: “SATANÁS SAI DESSE CORPO! SAAAAAAAAAAAAAAAI“.
Eu não sei o que esses caras pensam, sinceramente. Meu amigo saiu de fininho no meio da confusão. Quando chegamos em casa começamos a rir muito. Claro, eu ainda estava assustado, com a testa toda melada de óleo e suando pra caramba da carreira que tinha dado. Cara corri tanto que devo ter emagrecido uns dois quilos com tamanho exercício.
Nunca mais invento uma dessas, e digo mais… Se Satanás realmente estiver no corpo de alguém, ele vai encher todos que ficam fazendo essas coisas de porrada. Acreditem, ele não vai querer sair na boa, não.


